Estudantes brasileiros melhoraram em ciências e apresentaram recuperação pós-pandemia superior à de vários países, mas desempenho segue abaixo da média da OCDE.
O Brasil apresentou sinais de avanço no Pisa 2025, avaliação internacional que mede conhecimentos e habilidades de estudantes de 15 anos em dezenas de países. Os resultados divulgados nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, mostram que o país conseguiu reduzir parte da distância que historicamente o separa das economias desenvolvidas, especialmente em ciências. A pontuação brasileira nessa área passou de 403 pontos em 2022 para 409 pontos em 2025, indicando recuperação após os impactos provocados pela pandemia sobre a aprendizagem.
Os números, entretanto, estão longe de representar a solução dos problemas educacionais brasileiros. O desempenho nacional continua abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em matemática, leitura e ciências, revelando dificuldades estruturais que permanecem presentes nas escolas. A nova edição do Pisa também oferece uma oportunidade para compreender uma questão mais ampla: o Brasil está realmente melhorando sua educação ou apenas recuperando parte do aprendizado perdido nos últimos anos?
O que mudou no desempenho do Brasil no Pisa 2025?
O resultado mais positivo apareceu em ciências. Os estudantes brasileiros alcançaram 409 pontos, contra 403 na edição anterior, uma evolução que ganha importância porque ocorre depois de um período marcado pela interrupção das aulas presenciais e por grandes diferenças de acesso ao ensino durante a pandemia. O Brasil conseguiu apresentar uma recuperação relevante nesse intervalo, enquanto diferentes sistemas educacionais ao redor do mundo ainda enfrentam dificuldades para retornar aos níveis anteriores. O avanço não elimina a diferença para os países mais desenvolvidos, mas mostra uma mudança de trajetória que merece ser acompanhada nas próximas avaliações.
O Pisa não avalia apenas se o estudante consegue memorizar conteúdos ensinados em sala de aula. A prova procura medir a capacidade de aplicar conhecimentos de matemática, leitura e ciências na resolução de problemas próximos de situações encontradas na vida cotidiana. Isso faz com que seus resultados sejam frequentemente utilizados para comparar a capacidade dos sistemas educacionais de preparar adolescentes para continuar os estudos, entrar no mercado de trabalho e lidar com uma sociedade cada vez mais dependente de tecnologia e informação.
Outro aspecto importante dos dados de 2025 é justamente a dimensão digital da educação. A avaliação incorporou questões relacionadas ao uso de ferramentas computacionais e à capacidade dos estudantes de resolver problemas em ambientes digitais. Ao mesmo tempo, 81% dos estudantes brasileiros participantes estudavam em escolas que restringiam o uso de celulares, percentual muito superior aos 37% registrados em 2022. A mudança mostra como o debate sobre tecnologia dentro das salas de aula avançou rapidamente no Brasil.
A comparação internacional, porém, continua exigindo cautela. Uma melhora de alguns pontos não significa que o país tenha alcançado os sistemas educacionais que tradicionalmente apresentam os melhores resultados. O principal sinal positivo está na redução gradual de algumas diferenças e na capacidade brasileira de recuperar aprendizagem após um período particularmente difícil. Para saber se existe uma mudança estrutural, será necessário observar se os avanços continuam nas próximas edições.
Por que o Brasil ainda está abaixo da média dos países desenvolvidos?
O desempenho brasileiro no Pisa está relacionado a problemas que vão muito além do conteúdo cobrado em uma prova. Desigualdade socioeconômica, infraestrutura escolar, formação e valorização dos professores, frequência dos estudantes e diferenças regionais influenciam diretamente a capacidade de aprendizagem. Uma escola localizada em uma região com maior disponibilidade de recursos pode oferecer condições muito diferentes daquelas encontradas por alunos de comunidades vulneráveis. Por isso, médias nacionais escondem realidades educacionais bastante distintas dentro do próprio país.
A recuperação também não ocorre na mesma velocidade entre todos os estudantes. A pandemia aprofundou desigualdades já existentes porque milhões de alunos passaram longos períodos dependendo de aulas remotas, muitas vezes sem computador próprio, conexão adequada à internet ou ambiente favorável para estudar. Mesmo depois da volta às aulas presenciais, redes de ensino precisaram identificar lacunas acumuladas em diferentes etapas da formação. O resultado do Pisa 2025 sugere que parte dessas perdas está sendo recuperada, mas o processo permanece incompleto.
Matemática continua sendo uma área especialmente importante nesse diagnóstico. Dificuldades com raciocínio quantitativo podem acompanhar o estudante durante toda a trajetória educacional e limitar posteriormente o acesso a profissões ligadas à engenharia, tecnologia, economia, ciência de dados e outras áreas que dependem dessas habilidades. Leitura também possui impacto transversal, porque compreender textos e interpretar informações é necessário praticamente em todas as disciplinas. Melhorar esses indicadores exige políticas contínuas, e não apenas intervenções próximas às avaliações internacionais.
O cenário brasileiro também precisa ser analisado em perspectiva histórica. O país ampliou significativamente o acesso à educação básica ao longo das últimas décadas, colocando nas escolas estudantes que anteriormente poderiam estar fora do sistema educacional. O desafio seguinte é garantir aprendizagem consistente para esse contingente. Dessa forma, aumentar matrículas, reduzir abandono e elevar o desempenho precisam ocorrer simultaneamente para que uma melhora no Pisa seja acompanhada de transformação efetiva da educação.
O que o resultado do Pisa significa para estudantes e para o futuro do Brasil?
Os resultados do Pisa vão além de rankings internacionais. A qualidade da educação influencia diretamente produtividade, renda, inovação e capacidade de um país desenvolver profissionais qualificados. Jovens com maior domínio de leitura, matemática e ciências possuem melhores condições de acompanhar transformações tecnológicas e adquirir novas competências ao longo da vida. Em uma economia na qual inteligência artificial, automação e digitalização estão modificando rapidamente diversas profissões, essa capacidade de aprender continuamente ganha ainda mais importância.
Para estudantes e famílias, entretanto, o resultado nacional não deve ser interpretado como uma avaliação individual. O Pisa utiliza amostras de jovens de 15 anos para produzir indicadores sobre o sistema educacional como um todo. Sua principal utilidade é permitir que governos, pesquisadores e gestores identifiquem tendências, comparem políticas públicas e observem áreas nas quais existem dificuldades persistentes. Uma melhora nacional pode indicar que determinadas estratégias estão funcionando, mas é necessário analisar quais grupos avançaram e quais continuam ficando para trás.
A forte expansão das restrições ao uso de celulares nas escolas também deverá alimentar novas discussões sobre aprendizagem. O fato de 81% dos estudantes brasileiros avaliados estarem em escolas com algum tipo de restrição mostra que a mudança ocorreu rapidamente. Ainda assim, limitar smartphones é apenas uma parte da discussão sobre tecnologia educacional. Escolas também precisam ensinar os estudantes a pesquisar informações, identificar conteúdos falsos, utilizar ferramentas digitais de maneira responsável e compreender tecnologias que farão parte do mercado de trabalho.
O Pisa 2025 deixa, portanto, uma fotografia com sinais positivos e alertas importantes. O Brasil avançou em ciências e conseguiu apresentar recuperação relevante depois das perdas educacionais associadas à pandemia, reduzindo parte da distância em relação às economias mais desenvolvidas. Ao mesmo tempo, permanecer abaixo da média da OCDE demonstra que ainda existe um caminho considerável para transformar recuperação em avanço estrutural.
O desafio agora é fazer com que os resultados positivos deixem de ser pontuais. Melhorar a aprendizagem exige continuidade de políticas educacionais, acompanhamento dos estudantes com maiores dificuldades, professores preparados e escolas capazes de combinar recursos tradicionais com novas tecnologias. O próximo Pisa ajudará a mostrar se o movimento observado em 2025 foi apenas uma recuperação pós-pandemia ou o começo de uma trajetória mais consistente. Para o Brasil, essa diferença importa porque educação não determina apenas posições em rankings: influencia diretamente as oportunidades oferecidas às próximas gerações.