O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde, frisa uma ideia simples e urgente: a prevenção do câncer de mama não pode depender de um único mês no calendário. O Outubro Rosa cumpre papel importante na sensibilização, mas a lógica da saúde preventiva exige continuidade, não episódios anuais de atenção. Este artigo discute por que a prevenção precisa ser permanente, o que se perde quando ela é tratada como campanha sazonal e como transformar intenção em prática contínua de cuidado.
Por que concentrar a atenção em um único mês é insuficiente?
O câncer de mama não respeita calendário. Tumores se desenvolvem em qualquer época do ano, e o rastreamento eficaz depende de periodicidade regular, não de mobilizações pontuais. Quando a atenção à saúde mamária se concentra apenas em outubro, os outros onze meses ficam sem a mesma visibilidade, e mulheres que não foram alcançadas naquele período tendem a adiar o exame por mais um ano inteiro.
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues aponta que esse comportamento cíclico cria uma falsa sensação de cobertura. Os serviços de saúde registram pico de demanda em outubro e ociosidade nos meses seguintes, o que gera desequilíbrio operacional e desperdiça capacidade instalada que poderia ser usada de forma muito mais eficiente ao longo de todo o ano.
O que o Outubro Rosa acerta e o que ainda precisa evoluir?
A campanha tem méritos inegáveis. Ela democratizou o debate sobre o câncer de mama, retirou o tema do silêncio e fez com que gerações inteiras de mulheres passassem a conhecer a importância da mamografia. Esse legado cultural é real e deve ser preservado. O problema não está na campanha em si, mas na forma como o sistema de saúde e a sociedade respondem a ela.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues avalia que o Outubro Rosa precisa evoluir de um evento mensal para um gatilho de comportamento permanente. O objetivo ideal não é que as mulheres agendem a mamografia em outubro, mas que incorporem o rastreamento como parte da rotina de saúde, da mesma forma que fazem com consultas ginecológicas ou exames de sangue periódicos.

Como criar uma cultura de prevenção contínua na saúde da mulher?
Construir uma cultura preventiva duradoura exige ação em múltiplas frentes. Na atenção primária, médicos e enfermeiros precisam solicitar o exame de forma sistemática em todas as consultas de rotina com mulheres na faixa etária de risco, independentemente do mês. Essa prática simples tem potencial de ampliar significativamente a cobertura do rastreamento sem qualquer custo adicional para o sistema.
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues ressalta também que as campanhas de comunicação pública precisam ser distribuídas ao longo do ano, com mensagens adaptadas a diferentes públicos e contextos. Uma campanha em março pode alcançar mulheres que estavam de férias em outubro. Uma ação em junho pode sensibilizar quem só então começou a ter acesso a informações sobre saúde preventiva. A continuidade é o que transforma intenção em hábito.
Qual é a responsabilidade do sistema de saúde nessa mudança?
O sistema de saúde tem papel central na construção de uma cultura preventiva que transcenda o calendário. Isso significa manter a oferta de mamografias estável ao longo de todos os meses, sem picos artificiais em outubro e vazios no restante do ano. A regularidade na oferta comunica, por si mesma, que o rastreamento é uma prioridade permanente, não uma obrigação sazonal.
Portanto, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues conclui que a verdadeira mudança começa quando gestores, profissionais e pacientes passam a tratar a prevenção como um processo contínuo. O Outubro Rosa deve ser o reforço de uma prática já estabelecida, não o único momento em que ela acontece. Saúde que funciona apenas um mês por ano não é política pública: é marketing com data de validade.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez