Brasil vira polo global de data centers de inteligência artificial, mas impasse no Senado ameaça travar investimentos bilionários

Diego Velázquez Por Diego Velázquez
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País já concentra quase metade da capacidade instalada de data centers da América Latina, enquanto o Redata, principal incentivo fiscal do setor, segue parado no Congresso

O Brasil se consolidou como o principal destino de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial na América Latina, muito por conta do território extenso e da matriz energética renovável, atributos que atraem gigantes globais de tecnologia interessados em construir data centers no país. Segundo levantamento da BrazilCham, o Brasil já reúne 48% da capacidade instalada de data centers da região e 71% de tudo o que está em construção atualmente, à frente de mercados como México, Chile e Argentina.

Apesar desse protagonismo, o avanço do setor no país esbarra em um obstáculo conhecido: a demora do Congresso Nacional para aprovar o Redata, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, considerado peça central para destravar novos aportes bilionários no território brasileiro. O impasse chama atenção justamente em um momento no qual o mundo vive uma corrida acelerada por infraestrutura capaz de sustentar o crescimento da inteligência artificial.

Por que o Brasil virou destino de bilhões em investimentos de IA

Empresas conhecidas como hyperscalers, entre elas Amazon, com a AWS, Microsoft, com o Azure, Alphabet, dona do Google, além de Meta e Oracle, preparam um aporte conjunto estimado em US$ 725 bilhões em 2026, valor cerca de 77% maior do que o investido em 2025. Do total, aproximadamente 75% deve ser direcionado especificamente para infraestrutura voltada à inteligência artificial, o que reforça o tamanho da disputa global por capacidade computacional e armazenamento de dados.

Um exemplo concreto desse movimento é o projeto anunciado pela ByteDance, controladora do TikTok, em parceria com a empresa brasileira de energia renovável Casa dos Ventos, para construir um data center avaliado em US$ 9,1 bilhões no Porto do Pecém, no Ceará. O empreendimento reforça o interesse de companhias internacionais em instalar operações de grande porte no Nordeste brasileiro, região que combina disponibilidade de energia limpa com proximidade a rotas logísticas estratégicas.

Esse cenário favorável ao Brasil também é impulsionado pela disponibilidade de fontes renováveis de energia, um diferencial competitivo em um momento no qual empresas de tecnologia enfrentam pressão crescente para reduzir o impacto ambiental de suas operações. Estimativas da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, a Brasscom, indicam que os investimentos do setor no país podem chegar a US$ 92 bilhões até 2031, caso as condições regulatórias e fiscais evoluam de forma favorável.

O impasse regulatório que ameaça travar o avanço do setor

O principal entrave para a consolidação desse potencial é o Redata, criado inicialmente por meio de medida provisória editada em 2025 e que previa a suspensão de tributos federais, como PIS, Cofins, IPI e Imposto de Importação, na compra de equipamentos destinados a data centers. A medida provisória perdeu validade em fevereiro deste ano, sem que o Senado Federal a votasse dentro do prazo constitucional, o que obrigou o setor a depender da aprovação de um projeto de lei complementar para manter os benefícios.

A Câmara dos Deputados chegou a aprovar o Projeto de Lei 278/2026, que reproduz os incentivos previstos na medida provisória original, ainda em fevereiro, encaminhando o texto para análise do Senado. Desde então, porém, a matéria não avançou. Segundo apuração de veículos especializados em cobertura legislativa, o impasse envolve divergências sobre quais fontes de energia podem ser consideradas elegíveis para os benefícios fiscais, com parte dos senadores defendendo a inclusão do gás natural ao lado das fontes renováveis originalmente previstas no texto.

O Congresso Nacional entrou em recesso no fim de julho sem concluir a tramitação do projeto, o que deve adiar qualquer decisão sobre o tema para o segundo semestre. Como 2026 é um ano de eleições gerais, a expectativa entre parlamentares é de um calendário legislativo mais enxuto até outubro, concentrado em poucas semanas de esforço legislativo, o que pode dificultar ainda mais a votação de um projeto considerado tecnicamente complexo e politicamente sensível pelo Congresso.

Representantes do setor de tecnologia têm reforçado publicamente que o país corre o risco de perder competitividade caso a indefinição regulatória se prolongue. Executivos ligados a fabricantes de infraestrutura para data centers já afirmaram à imprensa que o interesse das empresas em investir no Brasil segue presente, mas que a ausência de um marco tributário estável tende a atrasar decisões de investimento que poderiam ser tomadas com mais rapidez em outros países da região.

O que está em jogo para o Brasil nos próximos meses

Caso o Redata seja finalmente aprovado, a expectativa do setor é de uma aceleração ainda maior nos investimentos em infraestrutura digital no país, com potencial de gerar empregos qualificados e fortalecer a posição do Brasil como referência regional em computação de alto desempenho. Projetos como o data center da ByteDance no Ceará, no entanto, seguem avançando independentemente da definição regulatória, o que mostra que parte do mercado já decidiu apostar no país mesmo diante da incerteza no Congresso.

Por outro lado, a demora na aprovação do incentivo fiscal pode custar caro em um setor marcado por decisões de investimento tomadas em escala global e com forte concorrência entre países que buscam atrair os mesmos hyperscalers. Analistas do mercado de tecnologia avaliam que, quanto mais tempo o Brasil levar para oferecer segurança jurídica ao setor, maior a chance de parte desses recursos bilionários serem direcionados para concorrentes regionais, como México e Chile, que também disputam a instalação de novos data centers voltados à inteligência artificial.

Para o cidadão brasileiro, o desfecho dessa disputa regulatória tem efeitos que vão além do debate técnico entre parlamentares. A expansão de data centers no país está diretamente ligada à capacidade de expandir o acesso a serviços digitais mais rápidos, à criação de empregos na área de tecnologia e ao fortalecimento do Brasil como protagonista em um setor que deve moldar boa parte da economia global nas próximas décadas.

Fontes consultadas:
BrazilCham | Senado Notícias | CNN Brasil

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