FIDC parece arriscado, mas a estrutura muda a conta

Pedro Daniel Magalhães
Diego Velázquez Por Diego Velázquez
5 Min de leitura

Poucos instrumentos do mercado de crédito estruturado, na avaliação de Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, carregam tanta desconfiança quanto o FIDC, mesmo quando o desenho do fundo existe justamente para conter esse risco. Um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios reúne recursos de investidores para comprar recebíveis de empresas, como duplicatas, contratos e parcelas de cartão, e devolve um retorno atrelado ao pagamento desses créditos.

Até aqui, a lógica não difere muito de uma operação comum de antecipação de recebíveis. O que separa um FIDC sólido de uma aposta malfeita não é a existência de crédito envolvido na operação, mas a forma como as cotas do fundo distribuem esse risco entre quem investe.

Esse detalhe quase nunca aparece quando alguém descreve um FIDC como investimento arriscado por definição, sem examinar a estrutura por trás do número de retorno anunciado.

Por que cotas sênior e subordinada mudam o risco real do FIDC?

Um FIDC não distribui o risco de inadimplência de forma igual entre todos os cotistas. As cotas seniores recebem primeiro e têm prioridade sobre qualquer pagamento feito pelo fundo. As subordinadas absorvem as perdas antes que o problema chegue até as seniores, funcionando como um colchão financeiro entre o recebível inadimplente e o investidor no topo da fila.

Esse desenho, chamado de subordinação, explica por que dois FIDCs do mesmo setor podem ter perfis de risco completamente diferentes. Quanto maior a proporção de cotas subordinadas em relação às seniores, maior a proteção de quem está mais protegido na estrutura. Pedro Magalhães costuma observar que investidores menos experientes comparam apenas a rentabilidade prometida, sem checar em qual camada da estrutura esse retorno está sendo pago.

Quem cede os créditos importa tanto quanto o retorno prometido

A qualidade de um FIDC começa antes das cotas, no cedente, a empresa que vende os direitos creditórios ao fundo. Se a carteira de recebíveis vem de um setor concentrado, com poucos devedores e histórico de atraso, o risco sobe independentemente de como as cotas foram divididas depois.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Essa etapa costuma ser a mais negligenciada em análises superficiais, porque exige verificar dado operacional da empresa cedente, não apenas o regulamento do fundo. Pedro Magalhães reflete que um FIDC pode ter uma estrutura de subordinação robusta e, ainda assim, carregar recebíveis de qualidade duvidosa. As duas camadas, cedente e estrutura de cotas, precisam ser avaliadas juntas, nunca isoladamente.

Quais sinais separam um FIDC bem estruturado de um mau negócio?

Três sinais concretos ajudam a diferenciar uma estrutura sólida de uma armadilha disfarçada de rentabilidade alta: o nível de subordinação em relação ao histórico de perda da carteira, a concentração de devedores dentro do fundo e a existência de classificação de risco feita por agência independente.

Pedro Magalhães menciona que nenhum desses critérios garante isoladamente que o FIDC seja seguro, mas a ausência de qualquer um deles já é um alerta. Um fundo sem classificação de risco pública, por exemplo, dificulta a comparação entre operações parecidas. A concentração excessiva em poucos devedores transforma o risco de crédito individual em risco do fundo inteiro, mesmo quando a estrutura de cotas parece bem desenhada no papel.

O critério que substitui a comparação de retorno

Avaliar um FIDC pela taxa de retorno anunciada é comparar embalagens, não o que está dentro delas. A pergunta que separa quem entende de crédito estruturado de quem apenas segue a promessa de rentabilidade é outra: em que camada da estrutura esse retorno está sendo pago, e o que precisaria dar errado para que ela deixasse de ser paga.

Essa lente, mais do que qualquer classificação de risco isolada, é o que torna um FIDC compreensível tanto para quem decide investir quanto para quem busca captar recursos por meio dele. Pedro Daniel Magalhães aponta essa mudança de olhar como o passo que falta na maioria das análises apressadas sobre crédito estruturado.

 

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