Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra recuo histórico nos homicídios, ao mesmo tempo em que a violência contra a mulher volta a crescer no país
O Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica, iniciada em 2012. É o que revela a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta semana e que reúne os principais indicadores de criminalidade do país. Apesar da queda geral na violência letal, um dado chama atenção e contraria a tendência: os casos de feminicídio voltaram a aumentar, revelando um cenário ainda preocupante para a segurança das mulheres brasileiras.
O levantamento é considerado uma das principais referências sobre criminalidade no país, reunindo dados oficiais de segurança pública de todos os estados. Por isso, seus números costumam orientar decisões de política pública e servir de termômetro para avaliar o avanço, ou o recuo, das ações voltadas ao combate à violência em todas as regiões do Brasil.
O que mostra o novo Anuário de Segurança Pública
De acordo com o levantamento, o indicador de mortes violentas intencionais, categoria que reúne homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais, caiu de 20,6 casos por 100 mil habitantes em 2024 para 19,1 em 2025, uma redução de 8,2%. Em números absolutos, foram 40.775 mortes violentas no último ano, ante 44.127 registradas em 2024, o que representa quase quatro mil vidas a menos perdidas para a violência.
Essa é a primeira vez que o indicador fica abaixo da marca de 20 mortes por 100 mil habitantes desde que a série histórica começou a ser medida, em 2012, quando a taxa nacional era de 27,7. Ao analisar os componentes que compõem esse número, o Anuário aponta quedas expressivas em crimes como homicídio doloso, que recuou 10%, latrocínio, com queda de 17%, e lesão corporal seguida de morte, que diminuiu 15,2% no período.
Nem todos os indicadores, porém, seguiram a tendência de queda. As mortes decorrentes de intervenções policiais subiram 5,4% no país, um dado que costuma gerar debate sobre o uso da força em operações de segurança. Além disso, sete unidades da federação registraram aumento nas mortes violentas intencionais em 2025, com destaque para o Rio Grande do Norte, que teve alta de 19,6%, seguido por Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.
Por que a violência contra a mulher segue crescendo
Enquanto o indicador geral de violência recuou, os números relacionados à violência de gênero caminharam na direção oposta. Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, o equivalente a 4,3 mortes por dia, resultado que representa uma taxa nacional de 1,4 vítima por grupo de 100 mil mulheres, alta de 4% em relação ao ano anterior. O percentual de mulheres assassinadas por razões de gênero também chegou a 44,4% do total de homicídios femininos, o maior índice desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime específico no Código Penal, em 2015.
As tentativas de feminicídio também aumentaram, chegando a 4.189 casos de mulheres que sobreviveram a agressões com essa motivação, um crescimento de 5,9% frente a 2024. Na prática, isso significa que, para cada feminicídio consumado registrado no país no ano passado, houve quase três tentativas, o que reforça a gravidade do cenário mesmo diante da redução observada em outros tipos de crime violento.
O Anuário também traz um recorte regional que ajuda a entender onde o problema é mais grave. Ao considerar em conjunto os feminicídios consumados e tentados, as regiões Centro-Oeste e Norte apresentaram as maiores taxas do país, com 9,8 e 8 vítimas por 100 mil mulheres, respectivamente. Já as regiões Sudeste, Nordeste e Sul registraram níveis menores de violência letal de gênero, com taxas de 4,2, 4,8 e 5,2 vítimas por 100 mil mulheres.
O que os números revelam sobre os desafios de segurança pública
Especialistas em segurança pública costumam destacar que a queda geral da criminalidade violenta reflete, entre outros fatores, o avanço de políticas de inteligência policial e a integração de dados entre estados, ferramentas que têm permitido ações mais direcionadas contra o crime organizado. Ainda assim, o aumento da violência de gênero mostra que esse tipo de crime segue exigindo respostas específicas, que vão além das estratégias tradicionais de combate à criminalidade.
Para quem acompanha o tema de perto, o contraste entre a queda geral da violência e o aumento dos feminicídios reforça a necessidade de políticas voltadas especificamente à proteção das mulheres, como o fortalecimento de redes de acolhimento, a agilidade na tramitação de medidas protetivas e a capacitação de policiais para identificar sinais de risco antes que a violência se torne letal. Os dados divulgados nesta edição do Anuário devem, inclusive, orientar debates sobre segurança pública ao longo do segundo semestre, especialmente em um ano de eleições presidenciais, quando o tema tende a ganhar ainda mais espaço no discurso dos candidatos.
Fontes consultadas:
Agência Brasil | Brasil de Fato